Todo dia 1º de outubro, o Brasil e o mundo fazem mais do que homenagens: recordam que envelhecer é direito humano, e que as pessoas idosas devem ocupar lugar de destaque em nossa sociedade. A data marca o Dia Nacional e Internacional da Pessoa Idosa, instituído pela ONU em 1990 (Resolução 45/106) e, no Brasil, reconhecido pela Lei nº 11.433/2006 como forma de valorizar essa parcela da população e promover a conscientização sobre os desafios do envelhecimento.
Mas não basta celebrar — é essencial refletir, agir e comprometer-se para que o respeito à pessoa idosa seja real e constante, todos os dias.
O panorama do envelhecimento no Brasil
A população brasileira está passando por uma transformação demográfica irreversível: a proporção de pessoas com 60 anos ou mais cresce a olhos vistos, enquanto as faixas etárias mais jovens diminuem relativamente.
Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), entre 2010 e 2022, a população de 65 anos ou mais aumentou 57,4 %.
O envelhecimento tornou-se tão marcante que o índice de envelhecimento — número de idosos para cada 100 crianças de 0 a 14 anos — passou de 30,7 em 2010 para 55,2 em 2022.
Estima-se que, hoje, cerca de 32 milhões de brasileiros têm 60 anos ou mais, representando aproximadamente 16 % da população.
Projeções apontam que, até meados deste século, o Brasil será um dos países com maior contingente de pessoas idosas no mundo.
Esses dados mostram que o envelhecimento não é um tema de alguns, nem de poucos — é uma pauta estrutural da sociedade e exige respostas coletivas em saúde, políticas públicas, cultura e economia.
A importância social das pessoas idosas
As pessoas idosas carregam memórias, experiências, saberes e valores acumulados ao longo da vida — e desempenham papéis fundamentais em diversos âmbitos:
Família e convivência
Muitos idosos mantêm participação ativa nas famílias: ajudam no cuidado de netos, contribuem com suporte emocional, compartilham histórias e fortalecem vínculos intergeracionais.
Mercado de trabalho e economia
Apesar de muitas pessoas pensarem o contrário, uma parcela considerável continua no mercado formal ou informal após os 60 anos — seja por necessidade ou escolha. No Brasil, cerca de 18,5 % dos idosos ainda trabalham, e 75 % colaboram com a renda familiar.
Voluntariado e engajamento comunitário
Muitos idosos dedicam-se a causas sociais, organizações comunitárias, mentoria e projetos locais. Sua experiência agrega legitimidade, comprometimento e visão ampla.
Cultura, memória e identidade
A pessoa idosa é guardiã de saberes tradicionais, de memórias coletivas e de histórias que constroem identidade regional e nacional. Sua voz torna-se ponte entre gerações.
Quando reconhecidos e valorizados, os idosos contribuem para uma sociedade mais justa, plural e solidária.
Desafios persistentes e o combate ao idadismo
Mesmo diante da evolução social, persistem desigualdades e barreiras para que a pessoa idosa seja plenamente cidadã:
Idadismo e preconceito — discriminação com base na idade reflete-se em atitudes sutis (comentários, exclusão) e também em barreiras estruturais (acessibilidade, mercado de trabalho restrito, limitação no acesso a tecnologias).
Desconhecimento de direitos — muitos idosos não conhecem o Estatuto do Idoso (Lei 10.741/2003), que garante prioridade em atendimento, transporte público, proteção contra violência e acesso a políticas públicas.
Saúde, dependência e cuidado — uma parcela significativa vive com limitações. Em estudos de saúde, observa-se que muitos dependem de cuidados, enquanto familiares acumulam a responsabilidade sem suporte formal.
Políticas públicas ineficientes ou insuficientes — embora existam leis e normas, a implementação em nível municipal e regional varia enormemente, abrindo lacunas no atendimento e proteção à pessoa idosa.
Inclusão digital e acesso à inovação — no mundo contemporâneo, o acesso à tecnologia é quase indispensável; garantir que os idosos participem ativamente dessa esfera é fundamental.
No Dia da Pessoa Idosa, autoridades também ressaltam a necessidade de combate ao idadismo. Por exemplo, em 2024, evento no STJ destacou iniciativas para promover “o direito de envelhecer com dignidade” e chamou atenção para a “revolução da longevidade”.
Valorização não apenas em 1º de outubro — mas em todos os dias
Uma sociedade madura e humana reconhece que a valorização da pessoa idosa não deve ser simbólica ou pontual. Eis algumas atitudes que todos podemos adotar:
Conscientização e educação: promover campanhas de sensibilização sobre o papel e os direitos dos idosos, combater estereótipos e ensinar o respeito desde a infância.
Incentivo ao protagonismo: garantir espaços de participação social, cultura, esportes, ensino e tecnologias acessíveis para que os idosos continuem ativos e influentes.
Fortalecimento de políticas públicas: apoiar programas de saúde preventiva, moradia, transporte, assistência social e capacitação tecnológica voltados para essa faixa etária.
Cuidado e atenção nas relações cotidianas: dentro da família, em vizinhança, no ambiente de trabalho — ouvir, incluir, valorizar a experiência, garantir acessibilidade e evitar atitudes condescendentes.
Investimento em rede de suporte formal: capacitação de cuidadores, estrutura para atendimento domiciliar, centros de convivência e suporte à autonomia do idoso.
Neste 1º de outubro, celebramos mais do que uma data no calendário: celebramos vidas, histórias e a certeza de que envelhecer é parte essencial da experiência humana.
Mas a verdadeira homenagem vai além: exige transformações diárias que garantam às pessoas idosas respeito, proteção e protagonismo. Reconhecê-las como sujeitos de direitos é avançar rumo a uma sociedade onde todas as idades sejam respeitadas — sem exceção.






